۰ the sharpest lives : jornada ; adrian blake—

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۰ the sharpest lives : jornada ; adrian blake—

Mensagem por Otcho em Sex Abr 29, 2016 12:47 pm


Everybody
hurts sometimes



warning!
menção a drogas, conotação sexual, violência e gore ;
— treinamento de piplup ;



A

ntes de morrer, Willie McCoy havia sido um idiota. Era tolice pensar que, depois de morto, deixaria de sê-lo.

Ele sentou-se do outro lado da mesa com seu berrante blazer xadrez. A calça era de um verde que lembrava um giz de cera. Os cabelos, curtos e negros, haviam sido penteados com cuidado para trás no rosto magro. Ele sempre lembrara a Adrian um daqueles atores de filmes de gangsteres com papéis insignificantes, do tipo que vende informações, faz o trabalho sujo e é dispensável. Obviamente, agora que Willie virara vampiro, a parte do “dispensável” não valia mais. Mas ele ainda vendia informações e fazia trabalhos sujos. Não, a morte não o fizera mudar muito. Contudo, por precaução, Adrian evitava olhá-lo nos olhos. Comportamento padrão ao se lidar com vampiros.

Willie era um sujeito mesquinho e nojento, só que agora era um morto-vivo nojento.

Permaneceram sentados no silêncio do ar-condicionado do escritório. As paredes cinzentas que o patrão de Adrian imaginou que fossem trazer serenidade faziam a sala parecer fria.

— Importa-se se eu fumar? — perguntou ele.

— Sim, sim, eu me importo. — Adrian, o próprio, era um fumante. O cinzeiro jazia sobre o tampo da mesa, a vista dos dois. Só que não iria dar a McCoy a graça de fumar ali.

— Droga! Você não vai facilitar as coisas, não é?

— Por que veio aqui, Willie?

— Nossa, eu queria tanto fumar! — disse, a pele do canto de sua boca começando a tremer.

— Não imaginava que vampiros tivessem tiques nervosos.

Ele levou a mão à boca, quase tocando-a, e sorriu, exibindo as presas.

— Certas coisas não mudam.

Adrian teve vontade de perguntar o que mudava, de fato. Qual era a sensação de estar morto? Conhecia outros vampiros — muitos — além dele, mas Willie era o primeiro que conhecera antes e depois de morrer. Era uma sensação peculiar.

—  O que você quer?

— Ei, eu vim aqui dar dinheiro a você. Quero ser seu cliente.

Adrian olhou para cima, buscando evitar seus olhos. A luz do escritório reluziu em seu prendedor de gravata. Era ouro de verdade. Willie nunca tivera nada do tipo. Estava se virando muito bem para um cara morto.

— Eu ganho a vida revivendo os mortos. Por que um vampiro iria precisar que se ressuscitasse um zumbi?

Ele negou com a cabeça.

— Não, nada dessa coisa vodu. Quero contratá-lo para investigar alguns homicídios.

— Não sou detetive particular.

— Mas você tem uma detetive particular que trabalha para a sua empresa.

Adrian assentiu.

— Você pode contratar a Srta. Sims diretamente. Não precisa me usar como intermediário.

As sacudidelas de novo.

— Só que ela não conhece vampiros como você.

Suspirou. Aquela conversa estava se estendendo demais.

— Vamos direto ao assunto, Willie? Preciso ir embora... —  E olhou para o relógio pendurado na parede — ... em quinze minutos. Não gosto de deixar clientes esperando, sozinhos, no cemitério. Eles tendem a ficar agitados.

McCoy riu. Adrian sempre achava reconfortante aquelas risadas abafadas, mesmo a vista das presas. Vampiros sempre tinham risadas melodiosas e harmoniosas: era parte da hipnose à presa.

— Aposto que ficam. Aposto de verdade que ficam.

Seu rosto serenou-se repentinamente, como se uma mão removesse aquela risada. Para vampiros, mudar de expressão é tão fácil quanto apertar um interruptor.

—  Está sabendo dos vampiros que estão sendo assassinados no Distrito?

Adrian respondeu:

— Fiquei sabendo. Quatro vampiros mortos no novo distrito de vampiros. Arrancaram os corações, deceparam as cabeças, toda essa merda.

— Você ainda trabalha com policiais?

— Ainda trabalho com a nova força-tarefa.

Ele riu.

— É, o “esquadrão assombro”. Poucos recursos e pouco pessoal.

— Você acabou de descrever a maior parte da situação da polícia nesta cidade.

— Talvez, mas os policiais pensam como você, Adrian. O que é mais um vampiro morto? Novas leis não mudam isso.

Havia passado dois anos desde o caso Addison versus Clark. Esse processo havia introduzido uma versão revisada do que era a vida e do que não era a morte. O vampirismo passara a ser lícito no bom e velho continente Sinnoh, um dos poucos continentes a reconhecê-los. O pessoal da imigração estava tendo muita dor de cabeça para evitar a imigração de multidões de vampiros estrangeiros.

Todas as perguntas possíveis e imagináveis estavam sendo levantadas nos tribunais. Herdeiros cujos beneficiadores se tornaram vampiros teriam de devolver as heranças? A pessoa enviuvava caso o cônjuge se tornasse um morto-vivo? Era homicídio assassinar um vampiro? Havia até um movimento para dar voto a eles.

Os tempos estavam mudando.

Adrian encarou o vampiro à sua frente e puxou um cigarro para si. Willie torceu os lábios, desgostoso. Será que pensava mesmo “o que era mais um vampiro morto”? Talvez.

— Se acha que penso dessa maneira, por que se dar ao trabalho de vir me procurar?

— Porque você é o melhor no que faz. Nós precisamos do melhor.

Era a primeira vez que ele se referia a “nós”.

— Para quem está trabalhando, Willie?

Ele, então, abriu um sorriso discreto e misterioso, como se soubesse de alguma coisa que Adrian deveria saber.

— Não se preocupe com isso. A remuneração é excelente. Queremos alguém que conheça a vida noturna para investigar os homicídios.

— Eu vi os cadáveres, Willie. Dei minha opinião à polícia.

— O que achou?

O vampiro inclinou-se para frente na cadeira, com as pequenas mãos bem esticadas sobre a mesa. As unhas de seus dedos eram claras, quase brancas, e desprovidas de sangue.

— Fiz um relatório completo para a polícia.

Adrian ergueu o rosto, quase olhando em seus olhos.

— Nem isso você vai me dar, não é?

— Não tenho permissão para discutir assuntos da polícia com você.

— Avisei a eles que você não aceitaria.

— Não aceitaria o quê? Você não me disse nada, droga! Aquele jogo de gato e rato era aflitivo.

— Queremos que investigue os homicídios desses vampiros. Que descubra quem ou o que está fazendo isso. Pagamos três vezes os seus honorários normais.

Adrian balançou a cabeça. Aquilo explicava a razão do desgraçado ganancioso do Bert, seu chefe, ter agendado a reunião. Sabia o que Adrian pensava a respeito de vampiros, mas seu contrato o forçava a, ao menos, reunir-se com qualquer cliente que tivesse lhe adiantado uma quantia.

Seu patrão fazia qualquer coisa por dinheiro. O problema era que ele achava que Adrian também deveria ser assim.

Levantou-se.

— A polícia já está investigando. Tenho ajudado de todas as formas possíveis. De certa forma, já estou trabalhando no caso. Guarde seu dinheiro.

Willie sentou-se e olhou para Adrian; uma paz forjada e parcimoniosa pairando em seu rosto. Estava imóvel, mas não aquela imobilidade desprovida de vida dos há muito mortos. Só uma sombra dela. Adrian sabia o que ele queria; era a mesma espera atenciosa de uma cobra que se prepara ao bote. Então, ficou ali em pé, esperando que ele se movesse.

— Por que não quer nos ajudar?

— Preciso me encontrar com meus clientes, Willie. Lamento não ser capaz de ajudá-los.

— Lamenta não querer nos ajudar.

Adrian tragou fundo seu cigarro.

— Entenda do jeito que quiser. — Deu a volta ao redor da mesa para conduzi-lo até a saída.

E foi aí que aconteceu.

Willie se movimentou com uma rapidez felina que nunca tivera em vida; uma ferocidade carniceira de olhos arregalados e garras crispadas. Não estivesse esperando por essa, Adrian teria sido preso naquele agarre. Mas esperava. Não foi difícil dar um passo atrás, agarrar sua corrente de prata e puxar fora o crucifixo, bem diante do vampiro.

— Não vou cair nos seus truques, Willie.

— Você viu quando me mexi...

— Eu ouvi quando se mexeu. Você morreu há pouco. Vampiro ou não, ainda tem muito o que aprender.

O outro olhou feio para Adrian, com sua mão ainda meio estendida em sua direção.

— Talvez, mas nenhum humano conseguiria desviar dessa maneira.

Ele se aproximou. Seu blazer xadrez quase esbarrava em Adrian. Juntos daquela maneira, pareciam amantes que sussurravam segredos. Os olhos deles estavam perfeitamente nivelados. Adrian olhou o máximo que pôde para baixo.

— Você não é nem um pouco mais humano do que eu — disse ele.

Adrian deu-se o luxo de expirar toda a fumaça naquele rosto sulcado. Afastou-se, então, para abrir a porta.

— Agora preciso mesmo ir embora. Obrigado por se lembrar da nossa empresa.

Sem sorrisos profissionais, sem simpatia. Willie se deteve ao passar pela porta.

— Por que não quer trabalhar para nós? Vou ter que dizer alguma coisa a eles ao voltar.

Havia uma espécie de medo na voz dele; uma nota de arrepio e temor sob toda aquela confiança. Era um tom que prometia punições pelo seu insucesso. Adrian sentiu algo vago, algo que soava como pena; então percebeu a tolice que fazia. Willie era um morto-vivo, pelo amor de Deus! Mas quando ficava ali, o olhando com aqueles pequenos olhos de contas, Willie era só Willie: o informante de casacos estranhos e mãos pequenas, nervosas.

— Diga a eles, quem quer que “eles” sejam, que não trabalho para vampiros.

— É uma regra rígida? — Formulou novamente como uma pergunta.

— Concreta.

Houve um lampejo de alguma coisa em seu rosto. Uma leve amostra do velho Willie. Era quase pena.

— Gostaria que não tivesse dito isso, Adrian. Essa gente não gosta que lhes neguem nada.

— Não gosto que me ameacem.

— Não é ameaça, Adrian. É a verdade.

Ele endireitou a gravata e foi embora.

Fechou a porta, deixando a testa pousar sobre ela. O que Willie quisera dizer? O que lhe aconteceria pela recusa? Mas não havia tempo para dissecar seus pensamentos agora; a auto-análise teria de esperar. Havia mentido a McCoy: não iria se encontrar com clientes. Iria trabalhar, sim, mas não pela Ressuscitadores Inc. e sim pela polícia. Tudo de que eu precisava estava em seu carro, até mesmo galinhas. Nunca se sabe quando um ritual vodu pode vir a calhar.

O crucifixo ficou pendurado sob a camisa, à vista de todos. Sua Browning Hi-Power saiu da gaveta para suas mãos. Estava munida, carregada; todas as balas folheadas a prata. Prata não mata vampiros, mas pode desencorajá-los. Ela os força a curar seus ferimentos com uma lentidão quase humana.

Craig, o secretário noturno, digitava furiosamente no teclado do computador. Seus olhos se arregalaram quando Adrian passou direto por ele. Talvez tenha sido a cruz que pendia de sua longa corrente. Ou talvez o coldre apertado, e a arma à vista de todos. Ele não falou de nenhum dos dois. Rapaz inteligente.

the sharpest lives are the deadliest to lead ;


O
caixão estava virado de lado. Arranhões brancos, marcas de garras, desciam o verniz escuro. O forro estava talhado e goivado. Uma marca de mão, feita com sangue, deixava a coisa toda bem evidente. As únicas coisas que sobraram no velho cadáver foram o terno retalhado, um osso de dedo da mão completamente mastigado, e um resto de escalpo. Ele era loiro.

Outro corpo estava, talvez, a uma distância de metro e meio. As roupas do homem estavam retalhadas. Seu peito havia sido aberto a rasgadas e suas costelas, quebradas como casca de ovo. A maioria dos órgãos internos já não estava lá, o que fazia a cavidade de seu corpo parecer um tronco de árvore que teve seu interior removido. Apenas seu rosto permanecia intocado. Olhos pálidos fitavam as estrelas do verão de uma maneira impossível.


Adrian agradeceu por estar escuro.  O cadáver daquele homem estava perdido entre as sombras das árvores e a escuridão roubava toda a cor; Adrian e Sigmund andavam por poças escuras que chafurdavam sob seus pés. Blake mediu as marcas das mordidas com uma fita. Suas mãos enluvadas revistaram o corpo, em busca de pistas. Não havia.

Podia fazer o que quisesse à cena do crime. Ela já havia sido gravada em vídeo e fotografada de todos os ângulos possíveis. Era ele sempre o último “especialista” a ser convocado. A ambulância esperava para levar os corpos assim que ele terminasse.

Já havia praticamente acabado. Sabia o que matara aquele homem. Ghouls. Já limitava a busca a uma espécie particular de morto-vivo, mas era uma informação banal; o legista poderia ter dito isso a eles.

A fita amarela da polícia estava amarrada aos troncos das árvores e passava pelo meio dos arbustos. Havia um laço amarelo nos pés de pedra de um anjo. A fita agonizava sob o vento que endossava a cada instante. O sargento Rudolf Storr ergueu a fita e veio em sua direção.

Quem o visse, acreditaria ser um pugilista. Ele andava com passadas largas e vivas. Dolph era o comandante da mais nova força-tarefa, o “esquadrão assombro”. O nome oficial era Equipe Regional de Investigação do Sobrenatural, ou ERIS. Cuidava de todos os crimes em que houvesse ligação metafísica; tudo aquilo que não pudesse ser comprovado pelas boas leis da lógica. Não era exatamente um progresso na carreira daquele homem. Willie McCoy tivera razão. A força-tarefa era um esforço claudicante para aplacar a imprensa e os liberais.

Dolph havia irritado alguém para estar naquela posição, mas, como era uma de suas características pessoais, estava determinado a fazer o melhor trabalho possível. Ele parecia uma força da natureza. Não gritava. Simplesmente fazia-se presente e as coisas se resolviam por causa disso.

— Bem... — disse ele.

Dolph era assim. Um homem de muitas palavras.

— Foi um ataque de ghoul.

— E?

Adrian deu de ombros.

— E não há ghouls neste cemitério.

Ele baixou o olhar para Adrian, o rosto neutro. Ele era bom naquilo. Não gostava de influenciar seus comandados.

— Você acabou de me dizer que foi um ataque de ghoul.

— Sim, mas eles não saíram daqui, deste cemitério.

— E daí?

— Daí que nunca ouvi falar de um desses que tenha viajado uma distância tão grande de seu próprio cemitério.

Adrian buscou saber se Dolph o estava acompanhado.

— Conte-me a respeito desses demônios, Adrian.

O sargento havia tirado seu fiel bloquinho e estava com a caneta de prontidão.

—  Este cemitério ainda é sagrado. Cemitérios que têm infestações de ghouls são, frequentemente, muito antigos ou são usados para a realização de ritos satânicos ou vodus. Essa utilização maligna vai esgotando seus poderes, até que o local deixe de ser sagrado. Quando isso acontece, alguns desses demônios vão morar nesses cemitérios e outros levantam-se de suas tumbas. Ninguém sabe ao certo o porquê.

— Espere. Quer dizer que ninguém sabe?

— Basicamente.

Ele balançou a cabeça, olhando para as anotações que fizera, de cara feia.

— Explique-se.

— Vampiros fazem outros vampiros. Zumbis são revividos de suas tumbas por ressuscitadores ou por um padre vodu. Até onde sabemos, os ghoul simplesmente saem de suas tumbas por conta própria. Há teorias que contam que pessoas muito malignas acabam se tornando ghoul. Eu não acredito. Durante certo tempo, uma teoria levantou a hipótese de que, quem fosse mordido por um ente sobrenatural, fosse um licantropo, um vampiro ou qualquer outro, viria a tornar-se um ghoul. Contudo, eu mesmo já testemunhei cemitérios inteiros esvaziados. Todos ali haviam se transformado em ghoul. Não havia como todos eles terem sido atacados por forças sobrenaturais durante a vida.

— Tudo bem. Não sabemos de onde vêm esses demônios. O que sabemos?

— Eles não apodrecem como os zumbis. Mantêm sua forma, mais ou menos como os vampiros. Possuem mais que uma simples inteligência animal, mas não muito. São covardes e só atacam se a vítima estiver ferida ou inconsciente.

— Mas acredite: eles atacaram o zelador do cemitério.

— Talvez ele estivesse inconsciente por algum motivo.

— Como?

— Alguém precisaria tê-lo deixado inconsciente.

— É provável?

— Não, os ghoul não trabalham com humanos ou com qualquer outro morto-vivo. Um zumbi obedece a ordens. Vampiros têm vontade própria. Ghouls são como animais que vivem em bando. Lobos, talvez, mas muito mais perigosos. Não seriam capazes de entender o conceito de trabalhar com outra pessoa. Se você não é um deles, ou é comida ou é algo do qual eles têm que se esconder.

— Então, o que houve aqui?

—  Dolph, esses demônios viajaram uma distância considerável para chegar a este cemitério. Os outros cemitérios ficam a quilômetros de distância. Eles não costumam viajar assim. Portanto, é possível que, talvez, eles tenham atacado o zelador quando ele apareceu para expulsá-los. O normal seria eles fugirem de medo dele, mas talvez não o tenham feito.

— Poderia ser alguma coisa, ou alguém, fingindo ser esses demônios?

— Talvez, mas eu duvido. Quem quer que tenha sido, comeu aquele homem. Talvez um humano até seja capaz de fazer isso, mas nunca conseguiria estraçalhar o corpo daquela maneira. Humanos não têm tanta força assim.

— Um vampiro?

—  Vampiros não comem carne.

— Zumbi?

—  Talvez. Há alguns casos, raros, em que zumbis enlouquecem e começam a atacar gente. Eles parecem necessitar de carne. Se não a conseguem, começam a deteriorar.

— Achava que zumbis sempre se deteriorassem.

— Zumbis que comem carne duram muito mais que o normal. Há o caso de uma mulher que ainda aparenta ser humana após três anos.

— E deixam que ela saia por aí, comendo gente?

Adrian sorriu.

— Dão carne crua para ela comer. Se me lembro bem, a matéria dizia que o prato preferido dela era cordeiro.

— Matéria?

— Todo ramo de atuação tem o seu jornal profissional, Dolph.

— Como se chama?

Adrian acendeu um cigarro; a fumaça espiralou para a noite.

— “O Reanimador”. Que outro nome poderia ter?

Para sua surpresa, Dolph sorriu.

— Certo. Qual é a probabilidade de isto aqui ser obra de zumbis?

— Pequena. Zumbis só andam em bando cumprindo ordens.

— Até... — ele verificou as anotações — ... zumbis carnívoros?

— Há poucos casos documentados. Todos eles, caçadores solitários.

— Portanto, ou foram zumbis carnívoros ou foi um novo tipo de ghoul. Isso é tudo?

— Sim, é — Adrian confirmou.

— Está bem, obrigado. — Ele fechou o bloquinho de anotações e olhou para Adrian, quase sorrindo. — Tem de sair mais, Adrian. Está ficando com uma cara doente.

— Sem sermão, Dolph.

— Nem sonharia com isso.

— Certo — Adrian respondeu. — Se não for precisar mais de mim, já posso voltar para casa.

— É só isso, por enquanto. Ligue para mim caso se lembre de alguma coisa.

— Ligo, sim.

Adrian voltou para o carro, na companhia de Sigmund. O piplup não podia estar mais feliz por ver-se livre da cena do crime. Não era a primeira vez que o pequeno o acompanhava, mas era sempre um grande choque para ele. Bem, ele estava progredindo. Das primeiras vezes, vomitava sem parar por minutos inteiros. Agora ele se sentara no banco do passageiro com uma aparência só um pouco esverdeada. Nada de vômito.

Adrian atirou suas luvas ensanguentadas no lixo do carro. Ponderou a respeito de sua jaqueta e, no fim, acabou tirando-a também e jogando-a junto ao lixo. Não iria querer vesti-la outra vez.

— Tudo bem, campeão?

Sigmund olhou para cima e ensaiou um sorriso. Não foi muito convincente, mas assentiu que sim.

— Vamos para casa.

E a velha pick-up roncou para dentro da noite escura.


give me a shot to remember ;



E
 ra quase manhã quando dirigiu para casa; o sono da morte se apossava de seus ossos, arrastando-o como uma pedra arrastaria um condenado ao fundo de um lago. Podia sentir o sol fazendo a curva sobre a superfície da Terra, a poucos minutos dali. O beijo dos primeiros raios brindava o dia, luzindo com uma paz calma. Morrissey escorregava pelo rádio, claro e otimista, ignorante do sangue, do medo e da dor. O carro voava na estrada e Adrian via, com o canto do olho, árvores como borrões manchando sua janela sob os últimos instantes da noite em St. Louis. Quando chegou a sua casa, a claridade tímida e rósea do sol despontava no horizonte. Foi rápido a se jogar para dentro antes que os primeiros raios saudassem o dia.

Elizabeth o esperava em casa, com os olhos um tanto inchados por ter ficado acordada até tarde. Adrian suspeitava que houvesse chorado, só um pouquinho. Ela era sua melhor amiga desde que eram crianças; tinha a chave de seu apartamento e podia ir e vir como bem entendesse. Era jovem e bonita; seu cabelo comprido tinha cor de chiclete, embora ela o pintasse uma vez a cada mês. No que passara, havia sido azul-maltesa. Sigmund abrira um sorriso enorme ao jogar-se em seus braços. A moça teve o maior carinho ao ruflar suas penas. Olhou para Adrian, analisou seu rosto tão, tão cansado, deu um tapinha no sofá e indicou que se deitasse ali.

Adrian não precisou que ela oferecesse duas vezes. Tirou as botas sujas de lama, grama e deus sabe o quê, então deitou-se no sofá, a cabeça no colo dela. As boas mãos da garota foram parar em seus cabelos, mexendo num conforto.

— Tive um sonho noite passada — A voz dela era clara, límpida, como água correndo em um rio — Tudo era muito claro, muito branco. Nós éramos jovens de novo, sabe? Brincávamos o dia todo, até que deitávamos na grama, no jardim da escola, vendo o céu e as folhas, o sol e as sombras... Quase esqueci que já fomos inocentes assim.

Elizabeth era uma necromante, assim como Adrian. Sabia as coisas horríveis que espreitavam na noite; os terríveis males que a pureza do dia era capaz de esconder. Os olhos de Adrian flutuaram por trás das pálpebras, pesarosos; sonolentos.

— Era verão e éramos jovens. — Havia um sorriso nostálgico nas palavras dela — Sempre que eu ficava para trás, você se voltava e estendia a mão para mim. Mas, no sonho, eu estava cansada. E senti que me deixava para trás, cada vez mais longe e longe, e longe... Enclausurado num mundo só seu... Numa dor só sua.

Os olhos dela ficaram molhados com as lágrimas que não queria deixar cair. Sob os dedos que dedilhavam seus cabelos, Adrian quis ser capaz de fazer mais por ela. Alguma coisa. Qualquer coisa.

— Eu gritei e te chamei; implorei para que ficasse. E acho que, só dessa vez, você olhou para trás. — A voz de Elizabeth era pouco mais que um sussurro — E só isso bastou, Adrian. Só isso bastou.

Adrian levantou-se e envolveu-a em um abraço. Sabia o quanto as coisas haviam sido arruinadas entre eles; o quanto ele falhara com ela e todas as coisas que não podiam ser ditas ou lembradas sem que adagas se enterrassem em seus corações. Era uma vida difícil, aquela, de que ele nunca a deixara verdadeiramente fazer parte, sempre colocando-a às margens, sempre a empurrando para algum outro lugar. Um lugar seguro. Mas ela o seguira mesmo assim. Quando a necromancia se mostrou seu dom, Elizabeth não poupou meios para estudá-la. Não viu-se contente até saber o que Adrian sabia, ser parte do mesmo mundo que ele era.

E isso a arruinara. Houvesse ele sido presente... houvesse ele olhado para trás e estendido sua mão ao invés de negá-la, Elizabeth poderia ser uma pessoa diferente. Não que não fosse feliz. Mas quando se sabe das coisas horríveis que espreitam nas sombras, do lado negro por trás de cada porta, de cada parede; um mundo por trás do mundo, é difícil pousar a cabeça sobre o travesseiro e dormir em paz. Agora, ela estava grávida. Tinha pouco mais de dezenove e o pai da criança não era o cara certo; ela o amava, mas havia tantas, tantas brigas.

Sigmund se achegara entre os dois, piando baixinho, abraçando-a como se pudesse levar embora toda a dor. De quando em quando, Adrian desejava que Sigmund fosse o pokémon de Elizabeth e não o seu. Ele não merecia aquele pequeno, tão doce e puro. Iria corrompê-lo e destruí-lo, assim como destruíra Elizabeth.

— Vou tirar a criança.

— Eu sinto muito, Lizzie.

— Haha, vamos parar de bancar os sentimentais, está bem? — Ela o empurrou com gentileza, secando os olhos. Talvez um abraço fosse aquilo de que precisasse — Vim aqui pedir que venha comigo, está bem? Hoje à noite. Vamos beber e dançar e picar como adolescentes, okay?

— Edgard sabe disso?

Ela desviou o olhar para Sigmund, as mãos em suas penas.

— Ele nem sabe da criança, Adrian. Não sabe nem da existência dela, quanto mais que eu quero tirá-la.

Adrian detestou aquela ideia e, secretamente, pensou um plano só seu. Iria àquela festa com Lizzie; a impediria de beber demais, de drogar-se, de dançar como não houvesse amanhã. Então, telefonaria a Edgard. Contaria onde sua namorada estava e o que fazia. Não seria intrusivo o bastante para mencionar a gravidez; deixaria que o rapaz descobrisse sozinho. Ele podia não parecer, mas era um cara legal. Lizzie e ele podiam se entender, pelo bem da criança. Ele não deixaria que fizesse a merda que pretendia fazer. Ela iria se arrepender mais tarde, Adrian apostava cada um dos rins. Assim, disse que iria.

Deu-lhe um beijo pesaroso na testa e disse que estaria pronto às onze e meia.


I’m not okay ;



À
s onze e meia Adrian, vestindo camisa e calça pretas, uma jaqueta branca surrada e uns bons e velhos all stars, quase voltou para dentro do apartamento e vestiu outra coisa quando viu Elizabeth em um lindo vestido preto com brincos de perólas. Falsas, mas pérolas.

— Você está linda.

— Quero muito parecer bem essa noite — E secou o canto dos olhos, antes que borrasse a maquiagem — Quando me lembrar disso, quero lembrar de que foi a coisa certa a fazer. E de que foi uma noite divertida com os amigos: eu, você e Isa.

— Isadora vai junto? — Ela era a melhor amiga de Elizabeth, tolice sua achar que a moça não apareceria.

— Vai sim. Está esperando por nós no carro.

Ouviram músicas pulsantes durante toda a viagem até o Lorenn’s, uma das boates mais caras de St. Louis. Elizabeth fingia-se feliz. Isadora e Adrian fingiam aceitar esse plano doido dela. Quando chegaram, os dois trocaram um olhar confidente, pegaram seus respectivos celulares e enviaram mensagens a Edgard. Adrian foi além e ligou: disse onde Lizzie estava e o que fazia. Ciumento como o rapaz era, não demoraria a aparecer e armar um escândalo. Era com isso que Adrian contava. Sob pressão, Lizzie cederia; as palavras escorregariam de seus lábios e Edgard a impediria. Ele a impediria e Adrian poderia ver aquela criança crescer, sorrir; veria Elizabeth ser a melhor mãe do mundo a enchê-la de mimos.

Adrian não deixaria que nada de mal lhe acontecesse.

Assim, quando entraram no Lorenn’s e Icona Pop os agraciou com suas melhores canções, Edgard já estava a caminho. Segredou isso a Isadora, que sorriu aprovando. Ela confessou que manteria Lizzie longe dos negociantes de drogas e do bartender. Faria o máximo para a amiga ficar bem e sentada ou dançando devagar com alguma companhia. Adrian envolveu aquela cintura esguia e plantou-lhe um beijo casto na bochecha. Isadora era a melhor; protetora e feroz como leoa. Não quereria que Lizzie cometesse o pior erro de sua vida.

— Nossa, o lugar está cheio! — Elizabeth gritou por cima da música. — Quer dançar, Adrian?

— Acho que vou buscar uns drinques pra nós. Vocês me esperam?

Isadora e Lizzie disseram que sim, esperariam, e Isa conseguiu arrastá-la para um dos estofados nos cantos e sentá-la ali. Elizabeth disse algo sobre Isa estragar toda a diversão, mas a outra sequer reclamou. Envolveu uma mão sobre os ombros da amiga e ficaram lá, conversando sobre todas as coisas, menos o bebê que Lizzie tiraria.

Ótimo. Adrian afastou-se, embrenhado no meio da multidão. Era um emaranhado de corpos e braços que pulsavam ao ritmo da música. Um coro de uma só voz, que erguia uma energia vibrante do chão. Era tudo tão pagão, tão mágico, que poderia erguer os mortos de suas tumbas ali mesmo, sem precisar sequer de um sacrifício. Mas no que estava pensando, por Deus? Não era hora de pensar nisso. Era hora de manter-se longe de Elizabeth, pelo maior tempo possível.

Assim, no meio da multidão, Adrian o viu. Tinha um sorriso radiante, branco como a primeira aurora do dia. Os cabelos passavam dos ombros, agitados, enquanto ele dançava ao ritmo da canção. Havia algo em seu rosto quadrado; algo exótico, peculiar. Adrian ergueu os olhos e surpreendeu-o olhando. O rapaz sorriu. Adrian sorriu de volta. Foi a deixa para que o outro se aproximasse, sem abandonar aquele sorriso de iluminar o dia.

— Quer dançar?

Adrian queria. Mas não precisava dizer. Aproximou-se do outro, deixando que suas pernas roçassem bem de leve; mera provocação. Seus quadris se moviam na batida da música, vagarosos e sensuais. Suas mãos acharam o caminho para aqueles ombros só por um instante. No outro, escorregavam mornas pelos lados do corpo até não tocarem o rapaz em lugar algum.

Ele sorriu, deliciado. Suas mãos calosas foram parar na cintura de Adrian, trazendo-o para perto, os quadris bem juntos. Por um momento, Blake fechou os olhos. Deixou-se perder na intensidade daquele sorriso, gravado em sua mente, sob pálpebras fechadas. Deixou que o outro colasse o rosto ao seu cabelo, sussurrando contra as mechas densas; a respiração dele brincando em sua bochecha, quente; sensual. Quase podia esquecer o que viera fazer ali, toda a estória com Lizzie. Corpos dançavam ao redor deles, empurrando-os mais juntos. Era quente, intenso, o modo como as mãos do outro escorregavam dos lados de seu quadril para suas nádegas cobertas.

Adrian afastou o rosto só o bastante para capturá-lo em seu olhar. Olhos nos olhos agora, rostos próximos, respirações quentes. Deus, sequer sabia seu nome! Seus lábios prenderam os do outro, o inferior encerrado em seu mordiscar. Ele gemera em sua boca, trazendo-as juntas com línguas que se testavam; descobriam que gosto tinham quando misturadas assim. Seus braços acharam o caminho para trazer o rosto do outro mais junto ao seu e ficaram ali, possessivas; imperiosas. Quando se afastaram, querentes de ar, o outro fez questão de gingar seus quadris juntos, num ritmo caliente de ereções ouriçadas que se encontravam por cima do tecido pesado do jeans.

Blake gemeu, um som alto do fundo da garganta. Enterrou o rosto na junta entre o pescoço e o ombro e ficou ali, perdido no ritmo que o prazer ditava.

— Não sei seu nome — Murmurou, sem fôlego.

— Nem eu o seu — Quente, junto a sua orelha.

— Adrian.

— Philip.

— Oh, mas é um prazer, Philip.

Ele riu junto ao seu rosto, aquela risada harmônica e deliciada que fez cócegas em sua pele. O ritmo de seus quadris e das ereções o levava ao limite da insanidade; agora, não havia mais Lizzie, Isa ou Edgard. Não havia mais pista de dança, nem corpos pulsantes ao ritmo da canção. Só havia Philip, Philip de mãos calosas, de risada harmoniosa, de respiração quente em seu pescoço. E Adrian queria muito levá-lo para longe dali, para um quarto de motel onde pudessem terminar aquilo que haviam começado; onde houvesse corpos e respirações e pulsar. Deus, Adrian queria tanto. Mas, então, ouviu o grito de Lizzie:

— Você não tem o direito! — Enquanto Edgard a puxava pelo braço para longe de um estranho qualquer.

— Você é minha namorada, Lizzie. Não sei de que merda você ta falando.

— Terminou comigo ontem à noite, seu idiota. Não pode vir aqui e achar que vai consertar o mundo! — Sua voz quebrava enquanto as lágrimas escorriam. Ela não parecia mais deslumbrante em seu vestido preto e brincos de falsas pérolas. Parecia uma pintura trágica de rímel escorrido.

— Não, não terminei. Disse que tínhamos que dar um tempo-

— O que dá na mesma! Se não quer mais nada comigo, diga. Eu vim aqui “dar um tempo”. Estava “dando um tempo” com aquele cara bem ali.

— Por que está fazendo isso, Lizzie?

— Porque eu estou grávida, porra! — Os punhos dela foram parar no peito dele, sem convicção — Estou grávida de você e me abandonou ontem. E não só ontem. Quando é que não me abandona?

Ela se desmanchou em pranto, os ombros chacoalhando, o rosto enterrado junto ao peito de Edgard. Ele a abraçou, o rosto enterrado em seu cabelo. À distância, Adrian julgava que ele havia perguntado se era verdade. Com as mãos nos olhos, ela assentiu que sim.

— Vem, vamos sair daqui. — Edgard segredou a Lizzie. Passou por Adrian e piscou-lhe um olho, como quem agradece.

— De nada.

—  Teve algo a ver com isso? — Philip perguntou, os braços ainda em torno de sua cintura, o rosto na junta de seu ombro.

— Conhece Lizzie?

—  Não, mas sou amigo do Edgard. E acho melhor nós seguirmos aqueles dois, só por precaução.

Foi o que fizeram. Adrian e Philip saíram para as ruas. A eles, juntou-se ainda Isadora. Tinha um sorriso cansado no rosto, por ter estado bancando a babá de uma menina crescida. Philip e Adrian andavam a distância de um braço. Não se atreveriam a dar as mãos ou coisa assim saindo de uma boate em St. Louis. O lugar ainda era um condado de mente pequena; Adrian não estava a fim de comprar brigas àquela noite, não por isso.

A frente deles, Lizzie andava junto a Ed, que lhe passava um braço aos ombros. Ainda chorava, chacoalhando de leve, mas Adrian podia dizer que ela desistira da ideia. Edgard sussurrava doçuras vazias aos seus ouvidos, prometendo que tudo ficaria bem: eles ficariam bem. Por todos os santos, Adrian esperava que sim. Se ele a machucasse outra vez, a coisa toda se tornaria pessoal.

Acabaram os cinco em uma lanchonete de fim de estrada. A luz falha cambriolava acima de suas cabeças quando pediram um café amargo e um sanduíche oleoso. Pelo sorriso plantado nos lábios de Lizzie, as coisas ficariam bem. E pelo dos lábios de Philip, eles ficariam bem. Mas o clima todo da noite havia sido desfeito e, de repente, Adrian só se sentia cansado, mas a noite estava longe de acabar.

O cheiro o assaltou antes que os visse.

Cheiravam a perfume, óleos, essências; toda aquela porcaria que os meio espertos esfregavam no corpo. Os estúpidos só tropeçavam pelas ruas, fedendo a carniça. Os realmente espertos tomariam o maior banho de suas vidas e ficariam de molho na salmoura. Água não poderia ajudá-los por muito tempo, mas sejamos francos, nada poderia ajudá-los por muito tempo.

Eventualmente, iriam morrer. Diabos, já estavam todos mortos.

Esse bando era meio esperto. Haviam se banhado em Chanel No. 5, Old Spice, Carolina Herrera. As pessoas na rua pensariam que tinham mau gosto na hora de se perfumar, exagerando no borrifo, mas Adrian sabia o que eles eram; sabia o que esperar. Fechou os olhos e inalou fundo. Poderia ter se confundido, mas não havia. Abaixo dos perfumes, das loções e das colônias, havia o pungir doce e sutil de algo não exatamente morto. Algo em fresca decomposição.

Torceu o nariz e apostou sob o nome de sua mãe que eram fruto daqueles que procurava. E por que não seriam? Não era como se essas coisas não pudessem andar por aí; como se estivessem mortas e enterradas. Bem, não ainda.

Junto dos amigos, inclinado na mesa, via outros clientes esparramados. Típicos grupos de sexta à noite: um ou outro universitário bêbado, velhos bêbados, desabrigados bêbados, dois hippies bêbados em uma aventura, uns rappers ruins e aqueles que Adrian Blake sentira antes de vê-los.

Havia três, numa das mesas de canto. Uma garota gótica e dois magrelos, com maçãs do rosto impossivelmente altas. Todos os três pareciam drogados; só mais adolescentes nas ruas querentes de cocaína. O tipo de caras que deveriam viver num apartamento pago pelos pais, aspirantes a artistas, vidas mansas feitas de drogas, sexo e festas. Deus, como Adrian os odiava.

A gótica e os viciados observavam, atentos, dois dos universitários tropeçarem, bêbados, porta a fora. Empurraram, então, seus pedaços de mais de meia hora e os seguiram. Adrian inventou uma desculpa para não poder acompanhar seus amigos em casa e outra para Philip, cuja bochecha beijou antes de sair porta a fora, atrás dos drogados num passo que era quase uma corrida.

Os universitários haviam cruzado a rua que seccionava a Tompkins Square. Os outros três seguiam de perto, coisa de uns cinco metros, passando por uma fonte velha com as palavras Fé, Esperança, Caridade e Temperança gravadas em pedra. Alcançaram o extremo oposto do parque e continuaram seguindo a leste, para a Vigésima Rua, cada vez mais fundo nos bairros escolares.

E aquilo era muito ruim mesmo.

O bloco da Vigésima, entre as Avenidas do Átrio e a do Carrilhão, era um charco vazio e decrépito. Não havia ninguém ali exceto os garotos, seus perseguidores e Adrian. O trio estava bem atrás dos garotos. Quando alcançaram as sombras se separaram, um para cada lado dos meninos e um atrás. Adrian ouviu um tumulto, algum barulho, um farfalhar e todos eles haviam desaparecido. Merda.

Correu para onde os vira por último e deu uma olhada. A sua esquerda havia um prédio abandonado. Costumava ser um centro de ajuda a comunidade porto-riquenha, antes de se transformar num ponto de drogas. Agora era só uma construção condenada.

Seguiu o cheiro escada acima, por corredores cobertos de grafites e pichações. A escuridão era densa, mas ele não se importava. Atravessava os corredores, sentindo aquele cheiro de morte, quando ouviu um grito. Correu o mais que pôde e encontrou uma sala abandonada.

Um dos garotos da universidade estava caído de cara no chão. A gótica tinha um joelho firme em suas costas, mantendo-o no lugar. Quando Adrian chegou à porta ela já havia enterrado uma faca na nuca do garoto e estava tentando empurrá-la mais e mais fundo no crânio, para que pudesse abri-lo. Os outros dois drogados só olhavam, esperando o estouro da pinhata.

O outro rapaz estava encolhido num canto, numa poça de sua própria urina. Estava olhando de um para o outro, sua voz aguda assustada ao limite da sanidade.

Adrian odiou aquele som.

Mas odiou ainda mais o triturar.

A garota da faca havia conseguido torcê-la e fazer o crânio abrir; sangue e ossos manchando o chão. Enfiou os dedos na fissura, segurou firme e puxou, rompendo a cabeça do morto como um pedaço de fruta podre. Os outros se juntaram a ela quando começou a pegar punhados de cérebro. Era tarde demais para aquele ali. Adrian iria ter que esperar, esperar enquanto comiam, esperar enquanto o garoto do canto perdia o resto de sua mente ao ver o amigo ser devorado, pedaço por pedaço.

Só então agiu.

Tudo que teve de fazer para alcançar o primeiro foram três passos feitos de silêncio. Torceu seu ombro tão rápido que ele sequer fora capaz de sentir. Depois, tomara o rosto do viciado entre as mãos, firme, como um pai que admoesta um filho. Então, num só movimento, quebrou-lhe o pescoço. Pôde sentir a medula ceder enquanto o soltava, agarrando o outro pelos cabelos antes do primeiro bater no chão. A gótica ainda se levantava, abandonando o cadáver lacerado. Iria atacar com a faca. Adrian acertou o segundo na traqueia e deixou-o caído. Não o mataria, mas lhe daria tempo de lidar com a outra. Ela dançou com a faca e o atingiu na testa, num raspão que fez sangue escorrer e tingir seus olhos de vermelho.

O que quer que tenha sido antes de ser infectada, sabia como usar uma faca. Voltou-se outra vez, recuando, esperando que o outro pudesse levantar para ajudá-la. Adrian olhou para a brancura daqueles olhos, ocos de vida, e soube que ainda havia algo ali... algo dela que não havia morrido para a infecção. O bastante para pedir pizza, o bastante para saber usar uma faca, o bastante para ter noções de combate. Mas não o bastante para ser perigosa, enquanto ele não fizesse nada estúpido.



P
uxou a pokébola do bolso e libertou Sigmund, que guinchou assustado por ver-se de repente no meio de uma batalha. E uma batalha contra uma zumbi. Cobriu seus olhinhos arregalados com as patinhas, piando baixo enquanto tremia. Era um bebezinho medroso, aquele, e Adrian não o culpava. Lembrava dos horrores que enfrentara até que o próximo monstro e o próximo demônio fossem só parte de uma nefasta rotina.

— Não vai ter que lutar com ela, Sig.

O piplup destampou os olhos, vendo o que Adrian fora capaz de ver assim que pisara em batalha. Havia multidões de Misdreavus e Chandelures fundidos às sombras da parede; os rostos disformes se crispavam em caretas insidiosas e as chamas fracas tremulavam, bruxuleantes, desejosas de morte e das vidas que se esvaíam.

— Use Hydro Pump, Sigmund!

Ante a ordem, Sigmund enchera o peito e deixara que a torrente de água explodisse na noite. Os fantasmas se dissiparam, querentes de presas fáceis e não daquelas que estivessem dispostas a lutar. Tal qual abutres, poderiam esperar por outro dia. Se dissolveram nas sombras da noite, deixando apenas uma Misdreavus e um Chandelure para trás. Eles não estavam dispostos a desistir daquelas almas que se perdiam depressa.

A banshee guinchara, agudo, num grito horroroso que fizera Adrian, Sigmund e mesmo a gótica levarem as mãos aos ouvidos, atordoados por um instante. Tempo o bastante para que Chandelure os atacasse, numa explosão de chamas com seu Flame Burst. Piplup caíra, o corpo queimado chamuscando de leve, grunhindo de dor. Adrian torceu os lábios. A gótica o atacava, não tinha tempo para aconselhar Sigmund devidamente.

Correu para ela ao mesmo tempo em que a moça estocava com a faca e apanhou a lâmina entre suas mãos.

Ela olhou de Adrian para a faca e de volta para Adrian. Ele a segurava firme, firme, enquanto sangue escorria entre seus dedos cerrados. A sanidade da menina irradiara ao perceber que era seu fim. Blake torceu a faca, tirou-a das mãos dela, jogou-a no ar e a apanhara pelo cabo. Ela correu. Adrian a segurou pelas costas da jaqueta, colou o corpo ao dela como um amante e cravou a faca em seu pescoço, na base do crânio, cortando a medula em duas. Deixou a faca ali, presa, enquanto o corpo escorregava para o chão.

— Prenda-o em seu whirpool!

O pingüim encheu o peito de água e lançou o vórtice para cima do Chandelure. Era um turbilhão de água que girava e girava, levando-o para longe, apagando suas chamas. Quase derrotado, Chandelure amaldiçoara Sigmund com a mesma dor que sentia: pain split. O piplup guinchou, terrivelmente ferido, caindo de joelhos diante da força do inimigo. Estavam os dois prestes a chegar ao fim daquela batalha.

O último morto vivo levantava, ainda. Adrian o chutou de volta para o chão, pôs a bota pesada em sua garganta e pisou. E pisou, e pisou, e pisou, torcendo o pé como se esmagasse um inseto até que ouvisse o pescoço estalar.

— Não, você não vai perder, Sig! — E, com isso, apanhara um abandonado pedaço de madeira e o jogara em Chandelure. Não era um ataque efetivo; o fantasma simplesmente virara fumaça e desvanecera, refazendo-se logo em seguida, mas este ato dera tempo a piplup. E tempo era tudo de que precisavam — Hydro Pump agora!

A água, pesada como uma pedra, derrubara Chandelure antes que a dor pudesse ser dividida. Ele jazia ao chão, inerte; talvez morto. Sigmund piou baixo, sabendo que da morte de outro pokémon dependera sua sobrevivência. Uma lágrima amontoou-se em seus olhinhos cansados. Adrian odiava vê-lo assim, mas não havia escolha. Nós ou eles.

A Misdreavus, que até então assistira tudo deliciada, resolvera que era sua vez de atacar. Por mais que Sigmund estivesse ferido, foi capaz de desviar da bola de energia negra que ela lançara. A Shadow Ball atingira a parede, dissipando-se lá; teria sido o fim do pinguim se ela houvesse acertado. Irritada, a Misdreavus buscou voltar-se para ele, mas era tarde: sua boca aberta encerrava um poderoso Hydro Pump que a varreu direto para a parede, forçando-a a bater e lá permanecer.  Furioso, desesperado, sabendo que um erro aqui lhe custaria a vida, Sigmund avançou para ela com furiosas bicadas sucessivas, que arrancavam, uma a uma, os pedaços de pano que davam forma corpórea a Misdreavus. Ao fim de seu Drill Peck, tudo o que restara foram montes de retalhos picotados no chão.

Exausto, Sigmund caíra inconsciente. Adrian correra para ele, o próprio peito cheio de terror. Sentiu sua respiração fraca, cálida, mas existente.

— Você fez o que pôde, meu amigo — Num abraço cheio de ternura antes de trazê-lo de volta à pokébola.

Adrian joelhou-se junto aos mortos-vivos e limpou suas mãos na camisa do morto. O sangue havia começado a coagular e os cortes nas mãos e na testa eram feios arranhões. Checou os corpos. Um dos caras tinha alguns dentes faltando e lacerações nas gengivas. Havia estado triturando o crânio de alguém. Provavelmente o palhaço que Adrian havia mandado de volta a sepultura a alguns dias. Só que nada disso interessava, diante das mordidas.

Eram pequenas marcas na parte de trás de seus pescoços. O tamanho das marcas de dente fizeram o garoto Blake dar uma boa olhada na boca da menina. Batiam. Ela os havia mordido e infectado com o vírus. Era o que acontecia, de quando em quando. Uma pessoa ficava infectada e o vírus começava a devorar seu cérebro. Logo, era só um amontoado de membros e nervos reduzidos ao impulso da fome. Mas, algumas vezes, antes de chegarem àquele ponto, esses zumbis infectavam outras pessoas. Davam uma mordida mas não comiam o resto. Alguns diriam que era porque se sentiam sozinhos. Adrian diria que isso era um grande saco de merda. Era o vírus que os movia, se espalhando, infectando. Era a porra do Darwin fazendo o que sabia fazer de melhor.

Checou o pescoço da garota. Ela havia infectado os outros, mas algo havia a infectado antes. A marca estava desfigurada pela faca, mas ainda existia; brilhante, verdadeira como no dia em que a mordida fora dada. Era maior que as outras, mais violenta. Havia mordidas menores por todo o pescoço, como se o portador não conseguisse decidir se queria devorá-la ou infectá-la. Dava na mesma. A única coisa que fodia era que o trabalho não estava findo ainda.

Ele se levantava quando sentiu um cheiro vago... um cheiro na garota. Respirou fundo, tentando se lembrar de algo, algo que poderia fazer a diferença entre a vida e a morte. Mas algo se moveu atrás de si e ele esqueceu.

Era o outro garoto da universidade. Adrian havia esquecido dele até então, e agora o moço parecia querer se fundir a parede. Blake caminhou para ele, ciente de que teria de desacordá-lo. Estava prestes a socá-lo inconsciente quando o menino lhe poupou o trabalho. Desmaiou. Adrian o conferiu de cabo a rabo. Sem mordidas.

Então e só então permitiu que os joelhos fracos cedessem e o levassem ao chão. Não, não era por ser rotina que isso se tornava de algum modo mais fácil.

Com os braços envoltos nos joelhos e a cabeça enterrada neles, Adrian ergueu a voz e chorou.



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Re: ۰ the sharpest lives : jornada ; adrian blake—

Mensagem por Tate Peters em Sab Abr 30, 2016 2:30 pm

Treino Valido >>  Enfim seu Post foi bastante interessante assim fugindo um pouco do tema do Pokémon, adorei muito isso. Fiquei instigado a ler, mas ele ficou muito cansativo para a leitura, tirando isso está perfeito.


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